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Onda de choque focal vs radial: a diferença que muda o resultado do tratamento

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Por Dr. Felipe Reis
Publicado em 30 de maio de 2026 Última revisão: 30 de maio de 2026 ~22 min de leitura
Profissional aplicando o cabeçote de onda de choque focal, com gel, sobre a lombar coberta por campo estéril; dispositivo moderno ao fundo.

Onda de choque focal e onda de choque radial são duas tecnologias diferentes que dividem o mesmo nome. A focal concentra a energia em um ponto ajustável e alcança tecidos profundos com precisão; a radial libera a energia na superfície da pele e se dispersa à medida que penetra. Não são a mesma máquina com nomes distintos — partem de princípios físicos diferentes. O Instituto dos Reis utiliza a tecnologia focal. Entender essa diferença ajuda o paciente a saber, com clareza, o que está de fato recebendo.

"Faço onda de choque." A frase é comum em consultório, e quase nunca vem completa. Faz onda de choque de que tipo? Porque, sob o mesmo nome comercial, existem duas tecnologias que funcionam de maneiras diferentes — e o paciente, na imensa maioria das vezes, não tem como saber qual delas recebeu. As duas custam diferente, exigem equipamentos diferentes e alcançam profundidades diferentes. Chamar as duas de "onda de choque", sem qualificação, apaga justamente a informação que importa.

A confusão não é acidente. A onda radial é mais barata, mais simples de operar e mais difundida; e como o termo "onda de choque" pega bem, ele acabou cobrindo as duas. O resultado é que muito paciente acredita ter feito uma terapia de tecido profundo quando, na física, recebeu um estímulo de superfície.

Este guia foi escrito para desfazer essa ambiguidade com a única coisa que a resolve: explicação. O que é, fisicamente, uma onda de choque. Em que a focal difere da radial. Como esse estímulo mecânico vira resposta biológica no tecido. E — com honestidade — o que a diferença muda e o que ela não muda no resultado. Como em todo o conteúdo do Instituto, a régua é a literatura científica, não o marketing do equipamento.

O que são ondas de choque na medicina

Uma onda de choque é um pulso mecânico — uma onda acústica de alta energia que atravessa o tecido. Tecnicamente, ela tem uma forma característica: uma subida de pressão extremamente rápida e de grande amplitude, seguida, em poucos microssegundos, por uma breve fase de pressão negativa, até retornar aos valores de repouso. São pulsos de altíssima pressão de pico — que pode chegar à ordem de 100 megapascais — com tempo de subida na casa dos nanossegundos e duração muito curta.[1] Essa é a "assinatura física" que define uma onda de choque e a separa de outras formas de estímulo.

Da pedra no rim ao tendão inflamado

A onda de choque entrou na medicina no início dos anos 1980, com uma aplicação muito específica: fragmentar cálculos renais sem cirurgia, a litotripsia. Ali, o objetivo era puramente mecânico — quebrar a pedra. Foi um sucesso, e a tecnologia se espalhou pelo mundo nesse uso urológico.[1]

O que mudou tudo veio depois. Ao aplicar a onda de choque em tecidos vivos — tendões, ossos, partes moles — os pesquisadores perceberam que o efeito terapêutico não vinha de "quebrar" nada. Vinha de uma resposta biológica que o estímulo mecânico desencadeava nas células. O "modelo mecânico" da litotripsia deu lugar a um "modelo biológico": a mesma física, aplicada com energia e protocolo diferentes, passava a estimular reparo de tecido em vez de fragmentar.[1] Nasceu a aplicação que hoje interessa à ortopedia e à reabilitação — às vezes chamada de ortotripsia — voltada sobretudo a tendinopatias crônicas e a distúrbios de partes moles.

Por isso a onda de choque é descrita, na literatura, como uma forma de "mecanoterapia": uma terapia que usa um estímulo físico para provocar uma adaptação biológica. Guarde esse conceito — ele é a chave para entender, mais adiante, por que a profundidade que a onda alcança importa tanto.

As duas tecnologias com o mesmo nome: radial e focal

Aqui está o ponto central deste guia. Quando alguém diz "onda de choque", pode estar falando de uma de duas coisas — e a diferença começa na maneira como cada uma gera e entrega energia.

Corte lateral do tecido comparando onda de choque radial e focal. Na radial, um aplicador balístico golpeia a pele e a energia é máxima na superfície, divergindo e perdendo intensidade com a profundidade, com alcance da ordem de metade do da focal, sem se concentrar no alvo profundo. Na focal, um aplicador com lente concentra a frente de onda, que converge para um ponto focal ajustável em profundidade, entregando a maior densidade de energia no alvo profundo músculo-tendíneo. O alvo é o mesmo nos dois casos; muda onde a energia se concentra.
Radial e focal em corte lateral. A radial entrega a energia na superfície e a dispersa ao penetrar (efeito mais superficial); a focal concentra a frente por uma lente e converge num ponto focal ajustável, alcançando o alvo profundo. A diferença é profundidade e foco — não "qual é mais forte". A penetração da radial é da ordem de metade da focal em tecidos de densidade semelhante.

Onda radial: o pistão pneumático que a maioria conhece

A onda radial — que muitos autores preferem chamar, com mais precisão, de onda de pressão radial — funciona por um mecanismo balístico. Dentro do aplicador, um projétil metálico é acelerado a alta velocidade por ar comprimido ou por um mecanismo eletromagnético e golpeia a ponta do aparelho, que está encostada na pele. A energia cinética desse impacto é transferida para a superfície do corpo, no ponto de contato.[1]

A partir daí, a onda se propaga para dentro do tecido de forma esférica, "em leque" — daí o nome radial. Ela não é focada: sua pressão é máxima na pele e diverge, perdendo intensidade conforme penetra. Seu efeito, portanto, concentra-se nas camadas mais superficiais. É uma tecnologia legítima e útil para alvos rasos — mas é, por construção, um estímulo de superfície.

Onda focal: energia concentrada em um ponto ajustável

A onda de choque focal parte de outro princípio. A onda é gerada por uma fonte — eletro-hidráulica, piezoelétrica ou eletromagnética — e sua frente é concentrada por uma lente, de modo que toda a energia converge para um ponto focal. Esse foco pode ser posicionado em uma profundidade escolhida, conforme o tecido que se quer tratar.[1][3]

A consequência prática é direta: em vez de gastar energia na superfície e perdê-la na descida, a focal entrega a maior densidade de energia exatamente no alvo profundo, com a possibilidade de ajustar onde esse alvo está. É a mesma lógica de uma lente que concentra a luz do sol em um único ponto — só que com ondas acústicas, e em profundidade controlada.[1]

Comparação técnica lado a lado

A tabela abaixo resume as diferenças que importam clinicamente. Elas não são detalhe de catálogo — definem o que cada tecnologia consegue, e não consegue, alcançar.

Característica Onda de choque RADIAL Onda de choque FOCAL
Como a energia é gerada Projétil acelerado por ar comprimido (ou eletromagnetismo) que golpeia a ponta do aplicador — mecanismo balístico Fonte eletro-hidráulica, piezoelétrica ou eletromagnética, com a frente de onda concentrada por uma lente
Onde a energia se concentra Na superfície da pele, no ponto de contato Em um ponto focal ajustável, na profundidade selecionada
Comportamento em profundidade Diverge e perde intensidade ao penetrar (efeito mais superficial) Converge para o foco; alcança tecidos profundos com precisão
Penetração no tecido Cerca de metade da focal, em meios com densidade semelhante à dos tecidos Maior, e ajustável conforme o alvo
Perfil do pulso Subida de pressão mais lenta, pulso mais longo Subida de pressão muito rápida, pulso curto e bem definido
Como costuma ser chamada "Ondas de pressão radiais" "Ondas de choque focais"

A diferença na penetração é concreta: em estudos que compararam as duas técnicas, a onda radial espalha-se em meios de densidade semelhante à dos tecidos com cerca de metade do alcance da focal.[2] Para um alvo logo abaixo da pele, isso pode não fazer diferença. Para uma estrutura músculo-tendínea ou fascial profunda, faz toda. A própria magnitude da energia separa as duas: no ponto focal, a onda focal atinge picos de pressão muito altos — da ordem de dezenas de megapascais — e possui uma fase de pressão negativa; a radial, gerada por mecanismo pneumático, não tem essa fase negativa e concentra um pico bem menor na superfície.[9]

Por que a focal é uma tecnologia distinta (e não apenas "mais forte")

É tentador resumir a diferença como "a focal é mais potente". Seria impreciso. A focal não é simplesmente uma radial turbinada — é um princípio físico diferente. A distinção real está em duas palavras: profundidade e foco.

A onda radial entrega a energia na superfície e a dispersa para baixo. A focal faz o oposto: leva a energia para um ponto definido, na profundidade que se escolhe, e a concentra ali. Não é uma questão de "quanta" energia, mas de onde ela é depositada e com que precisão. Esse é o motivo de a literatura tratar a focal como a tecnologia mais sofisticada das duas — não por ser mais "forte", mas por ser direcionável a alvos que a radial, pela própria física, não alcança bem.[1][3]

O que "mais avançada" significa — e o que não significa

Aqui é preciso ser honesto, porque é onde o marketing de equipamento costuma exagerar. "Mais avançada" descreve a capacidade técnica da focal: profundidade ajustável, energia concentrada, precisão de alvo. Não é uma promessa de que ela sempre produz um resultado clínico melhor que a radial. Essas são afirmações diferentes, e confundi-las é um erro.

A própria evidência mostra por quê. Em um ensaio clínico randomizado e controlado por sham (placebo), pacientes com síndrome miofascial tratados em pontos-gatilho superficiais do trapézio melhoraram a dor de forma semelhante com a onda radial e com a focal — as duas superaram o placebo, e a diferença entre elas não foi significativa.[2] A leitura correta desse dado não é "tanto faz", e sim: quando o alvo é raso, a profundidade da focal não muda o jogo. A vantagem da focal aparece justamente onde a radial é limitada — em alvos profundos, que exigem que a energia chegue, concentrada, lá embaixo.

Em uma frase: a focal não é "melhor que" a radial em todo caso — é diferente, e é a tecnologia certa quando o problema está em profundidade e exige precisão. O critério não é "qual aparelho é melhor", e sim "qual aparelho serve a este alvo, neste paciente". É por essa razão técnica — alcance e precisão em tecidos profundos — que o Instituto dos Reis trabalha com a tecnologia focal.

Como a onda de choque age no tecido: a mecanotransdução

Se o efeito da onda de choque não é "quebrar" nada, o que ele é? A resposta está em uma palavra que parece complicada, mas descreve algo simples: mecanotransdução. É o processo pelo qual as células percebem um estímulo mecânico e o convertem em uma resposta biológica.[1]

O estímulo é o gatilho — não a cura em si

Esta é a ideia mais importante para entender a terapia. A onda de choque é um gatilho. Ela não "conserta" o tecido diretamente; ela aciona as células para que façam isso. Estruturas na membrana e no citoesqueleto celular — integrinas, canais sensíveis ao estiramento, outras proteínas — captam o estímulo físico e o traduzem em sinais bioquímicos que orientam a célula a migrar, proliferar e se diferenciar.[1] O corpo faz o trabalho de reparo; a onda de choque dá o sinal de partida.

Esquema em três etapas da mecanotransdução. Etapa 1: a onda de choque focal converge sobre a célula (estímulo mecânico). Etapa 2: a célula percebe — integrinas, canais sensíveis ao estiramento e o citoesqueleto captam a força física e a convertem em sinal bioquímico, que orienta a célula a migrar, proliferar e se diferenciar. Etapa 3: três respostas de reparo — analgesia (redução da substância P e perda seletiva de fibras finas de dor), modulação da inflamação (macrófagos de perfil pró para anti-inflamatório) e neovascularização (VEGF e eNOS, novos vasos, oxigênio e nutrientes ao tecido). A ideia central: a onda de choque é o gatilho, não a cura — o corpo faz o reparo.
A onda de choque não "quebra" nem "anestesia" nada: ela é um gatilho. Por mecanotransdução, a célula converte o estímulo físico em sinal biológico e responde com reparo — analgesia, modulação da inflamação e formação de novos vasos. O corpo faz o trabalho; a onda apenas dá o sinal de partida.

Três efeitos biológicos que importam

A partir desse gatilho, a literatura descreve um conjunto de respostas que explicam o efeito terapêutico em dores crônicas de tendão, músculo e fáscia:

  • Analgesia. A onda de choque tem efeito analgésico descrito há décadas — em parte por reduzir a inflamação, em parte por uma ação direta sobre a sinalização da dor.[1] Estudos mais recentes detalham essa ação no nível dos nociceptores da fáscia, o tecido conjuntivo que envolve músculos e que é fonte frequente de dor crônica.[4] No nível molecular, descreve-se redução da substância P na região tratada e perda seletiva de fibras nervosas finas (amielínicas), que conduzem dor — o que ajuda a explicar a analgesia prolongada, e não apenas momentânea.[9]
  • Modulação da inflamação. Em vez de só "desligar" a inflamação, a onda de choque parece reorientá-la: dados experimentais mostram que ela favorece a transição dos macrófagos de um perfil pró-inflamatório para um perfil anti-inflamatório, associado à resolução e ao reparo — uma espécie de ação imunomoduladora.[1]
  • Neovascularização. O estímulo induz a expressão de fatores ligados à formação de novos vasos — como o VEGF e a óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) — melhorando a irrigação local e, com ela, a entrega de oxigênio e nutrientes ao tecido em recuperação.[1] É um dos mecanismos centrais pelos quais a terapia favorece regeneração, e não apenas alívio momentâneo.

Essa é a lógica de fundo: a onda de choque focal trata dor crônica músculo-tendínea e fascial porque estimula uma resposta biológica de reparo em profundidade — não porque "anestesia" a região. E é também por isso que a profundidade alcançada pela focal deixa de ser um detalhe físico e passa a ter consequência clínica: o estímulo precisa chegar, concentrado, onde o tecido a ser estimulado está.

O lugar da onda de choque focal no tratamento da coluna

Para entender onde a onda de choque focal entra no tratamento da coluna, é preciso primeiro desfazer uma simplificação comum: a de que dor de coluna é sempre "do disco" ou "do nervo". Boa parte das dores crônicas da coluna tem um componente músculo-tendíneo e fascial importante — musculatura paravertebral em sobrecarga, pontos-gatilho miofasciais, tensão crônica no tecido conjuntivo. É exatamente esse componente que a onda de choque focal pode tratar.

O que a focal trata — e o que ela não trata

Aqui está a delimitação mais importante deste guia, e é uma questão de honestidade técnica: a onda de choque focal não "desfaz" uma hérnia de disco nem descomprime uma raiz nervosa. Não é isso que ela faz. Quem comprime uma raiz é uma estrutura — disco, osteófito, estenose — e o que alivia essa compressão é descompressão ou, quando indicado, cirurgia. A onda de choque atua sobre as partes moles: o músculo, o tendão, a fáscia. É aí que está o seu papel — e confundir isso é o caminho mais rápido para frustrar a expectativa do paciente.

Isso conecta diretamente com o que vimos sobre o mecanismo. A onda focal estimula nociceptores da fáscia e induz analgesia ao reduzir, de forma seletiva, fibras nervosas sensitivas amielínicas no tecido — um efeito descrito justamente na síndrome miofascial, que responde por grande parcela dos quadros músculo-esqueléticos.[4] Não é alívio por anestesia; é modulação da fonte de dor no próprio tecido conjuntivo.

O que a literatura mostra na dor lombar crônica

Na dor lombar crônica, a evidência sustenta um papel para a terapia por ondas de choque — desde que se leia o dado com sobriedade. Um ensaio clínico randomizado com ESWT focal, com acompanhamento de três meses, encontrou redução de dor significativamente maior no grupo tratado do que no grupo placebo: a queda na escala visual analógica foi de cerca de 5,7 pontos logo após a terapia e manteve-se em torno de 5,2 pontos em três meses, contra 4,4 pontos no grupo sham.[5] Vale o detalhe honesto, que revisões da área fazem questão de registrar: nesse estudo, a melhora foi de dor — não de função —, e os dois grupos também seguiam um programa de exercícios.[9] Revisões sistemáticas com metanálise de ensaios randomizados apontam na mesma direção — redução de dor e melhora funcional — embora com tamanhos de efeito que variam de estudo para estudo e amostras ainda modestas.[6]

Esse papel se estende ao componente miofascial, comum na coluna. Revisões que mapeiam o uso da terapia por ondas de choque na dor músculo-esquelética classificam a dor axial — miofascial, lombar e coccigodínia — entre as indicações com suporte na literatura.[9] Na síndrome miofascial do trapézio, especificamente, uma metanálise de dez ensaios randomizados encontrou efeito sobre a dor superior ao placebo e ao ultrassom, e comparável a técnicas como agulhamento seco e infiltração de ponto-gatilho.[9]

A leitura correta desses números não é "a onda de choque resolve a dor lombar". É outra: ela tem efeito real sobre o componente músculo-tendíneo da dor, e funciona melhor como peça de um plano do que como intervenção isolada. Esse, aliás, é um princípio que atravessa todo o conteúdo do Instituto — tratamento de coluna que se apoia em uma única ferramenta tende a entregar menos do que um plano que coordena várias.

Para se aprofundar: a descompressão neurovertebral não cirúrgica — que atua sobre o componente discal, e não sobre o componente muscular — é tema do artigo sobre SpineMED®. O Método KODE® em detalhe está na página O Método.

Quando a onda de choque focal é indicada — e quando não é

Nenhuma terapia é boa para todo mundo, e a onda de choque focal não é exceção. A pergunta certa nunca é "vale a pena fazer onda de choque?", e sim "este paciente, com este quadro, tem indicação para isso?". A indicação é individual, feita após avaliação clínica criteriosa — e em casos selecionados.

Quando faz sentido considerar

A onda de choque focal é mais útil em dor crônica de origem músculo-tendínea e fascial, em geral quando o quadro já persiste apesar de medidas conservadoras iniciais. As sociedades de área incluem a síndrome miofascial entre as indicações reconhecidas da terapia, ao lado de diversas tendinopatias.[8] No contexto da coluna, isso costuma significar o componente muscular e fascial de uma dor crônica — não o disco, não o nervo. A decisão de usá-la, e em que momento, depende de identificar que esse componente está, de fato, presente e contribuindo para o sintoma.

Quando não deve ser usada

Há contraindicações bem estabelecidas, e respeitá-las faz parte da boa prática. A terapia por ondas de choque não deve ser aplicada em gestantes, sobre área de infecção ativa, na proximidade de tumor conhecido, nem em pacientes com distúrbio grave de coagulação.[7] Há ainda um ponto técnico que importa especialmente na coluna: a alta energia não deve ser direcionada diretamente a estruturas neurais — medula e nervos —, nem a pulmão ou a placas de crescimento.[7] Revisões independentes da área convergem nessa lista de contraindicações e reforçam que trajetos nervosos e grandes vasos devem ser evitados durante a aplicação.[9] É justamente por isso que, quando se trata a coluna, o alvo é o componente de partes moles, e não a estrutura neural — o que reforça, de novo, o que a focal trata e o que ela não trata.

Fatores como uso de anticoagulantes, infiltração recente de corticoide na região e presença de marca-passo ou outros dispositivos são avaliados antes de decidir pela terapia.[7] Nada disso é burocracia: é o que separa a indicação correta da aplicação automática.

O que esperar — e o que não esperar

Expectativa desalinhada é uma das principais razões pelas quais pacientes saem insatisfeitos de um tratamento que, tecnicamente, foi bem conduzido. Vale a pena, então, ser direto sobre o que a onda de choque focal costuma entregar — e sobre o que ela não entrega.

O que esperar. Um tratamento em série, com sessões em geral semanais, definidas conforme o quadro. Um efeito que se constrói de forma gradual, ao longo das semanas — porque, como vimos, a terapia estimula uma resposta biológica de reparo, e biologia leva tempo. É comum sentir algum desconforto durante a aplicação e certa sensibilidade nas horas seguintes; em geral, são reações transitórias e bem toleradas, e não exigem anestesia.

A literatura ajuda a calibrar o relógio: a melhora clínica costuma se manifestar entre cerca de três e doze semanas após o tratamento, e o benefício pode se manter por longos períodos — por isso a resposta é avaliada alguns meses depois, e não no dia seguinte.[9] Há ainda um detalhe contraintuitivo, mas bem documentado: a aplicação é feita sem anestesia local, porque a anestesia tende a reduzir o efeito terapêutico da terapia.[9]

O que não esperar. Cura instantânea em uma única sessão — isso é incompatível com o mecanismo. Resolução de um problema que não é músculo-tendíneo: se a dor vem de compressão neural, a onda de choque focal não vai resolvê-la. E, sobretudo, não esperar que ela seja, sozinha, o tratamento. Ela é um recurso dentro de um plano, não o plano inteiro. Como em qualquer terapia séria, não há promessa de resultado: há indicação criteriosa, aplicação correta e acompanhamento da resposta.

Como a focal se integra ao Método KODE®, por indicação individual

No Instituto dos Reis, o tratamento da coluna é organizado pelo Método KODE®, estruturado em quatro fases: Fase 0 / Antecipar (prevenção e preparação), Fase 1 / Conter (controle da crise aguda), Fase 2 / Restaurar (reabilitação e recondicionamento, com a preparação física periodizada ao longo de doze semanas) e Fase 3 / Sustentar (manutenção continuada). A onda de choque focal não é uma etapa obrigatória dessa estrutura.

A lógica é de reparo, não apenas de alívio. Em vez de só apagar o alarme da dor, o Método KODE® busca criar as condições para o corpo reparar o que a causou. Reparo precisa de janela: ela se abre na Fase 1 — conter a dor sem sabotar a recuperação — e é sustentada na Fase 2, quando o alívio vira função que se mantém. Essa ordem é o mecanismo, sempre por indicação individual — e o cuidado é coordenado pelo Dr. Felipe Reis, co-coordenador do módulo de coluna da formação em Medicina Regenerativa da Cetrus.

Isso é uma decisão clínica deliberada, e merece ser dita com clareza: a onda de choque focal é um recurso à disposição da fase, acionado por indicação individual — usado quando faz sentido clínico para aquele quadro, e não como pacote aplicado a todo paciente. Quando há um componente músculo-tendíneo ou fascial que justifique, ela pode ser usada, por exemplo, durante a Fase Conter, para modular a dor, ou ao longo da Fase Restaurar, apoiando a reabilitação. Quando esse componente não está presente, ela simplesmente não entra.

É útil contrastar com o SpineMED®, que cumpre papel diferente: a descompressão neurovertebral é o eixo fixo das fases de descompressão do método, porque é ela que define a identidade clínica dessas fases. A onda de choque focal, não — ela é selecionada caso a caso. Essa distinção entre o que é eixo e o que é recurso por indicação é o que permite construir um plano sob medida, em vez de um protocolo idêntico para todos.

Há um princípio que orienta toda decisão no Instituto, inclusive a de quando usar — ou não usar — cada tecnologia: o paciente não será empurrado para uma cirurgia desnecessária, e nunca será afastado de uma cirurgia que ele de fato precisa fazer. A onda de choque focal vive do lado conservador dessa balança — é um recurso valioso quando há indicação, e nunca um motivo para adiar uma decisão cirúrgica que já está clara.

O que retém deste guia

  • ·Focal e radial são tecnologias diferentes com o mesmo nome. A radial entrega a energia na superfície da pele e a dispersa em profundidade; a focal concentra a energia, por uma lente, em um ponto ajustável, alcançando tecidos profundos com precisão.
  • ·"Mais avançada" descreve capacidade técnica, não superioridade clínica garantida. Em alvos superficiais, um ensaio randomizado mostrou focal e radial reduzindo a dor de forma semelhante. A vantagem real da focal aparece em alvos profundos, que exigem que a energia chegue concentrada lá embaixo.
  • ·O efeito é biológico, não mecânico. A onda de choque é um gatilho: por mecanotransdução, as células convertem o estímulo físico em resposta de reparo — analgesia, modulação da inflamação e formação de novos vasos. Não é alívio por anestesia.
  • ·Na coluna, a focal trata o componente músculo-tendíneo e fascial da dor. Ela não desfaz uma hérnia nem descomprime uma raiz nervosa — quem faz isso é a descompressão ou, quando indicada, a cirurgia. Confundir os papéis frustra a expectativa do paciente.
  • ·Na dor lombar crônica, a evidência sustenta um papel — como peça de um plano. Ensaio randomizado com ESWT focal e revisões sistemáticas mostram redução de dor, com tamanhos de efeito que variam. Funciona melhor integrada a um tratamento do que como intervenção isolada.
  • ·A indicação é individual, e há contraindicações. Não se aplica em gestação, infecção ativa, proximidade de tumor ou coagulopatia grave; a alta energia não deve ser direcionada a estruturas neurais, pulmão ou placas de crescimento. Por isso, na coluna, o alvo é a parte mole — não a estrutura neural.
  • ·O efeito é gradual e não há promessa de cura. A melhora se constrói ao longo das semanas, em uma série de sessões. Esperar resolução instantânea em uma única aplicação é incompatível com o mecanismo da terapia.
  • ·No Método KODE®, a focal é recurso por indicação individual — não pacote obrigatório. É acionada quando faz sentido clínico para o quadro. O SpineMED® é o eixo fixo das fases de descompressão; a onda de choque focal é selecionada caso a caso. E nenhum recurso conservador substitui uma cirurgia que está, de fato, indicada.

Perguntas frequentes sobre onda de choque focal

1. Qual é a diferença entre onda de choque focal e radial?

São duas tecnologias diferentes. A radial gera a onda por um mecanismo balístico — um projétil que golpeia a ponta do aplicador encostada na pele — e entrega a energia na superfície, dispersando-a conforme penetra, com efeito mais superficial. A focal concentra a energia, por meio de uma lente, em um ponto focal ajustável, alcançando tecidos profundos com precisão. Não é a mesma máquina mais potente: são princípios físicos distintos. Em meios com densidade semelhante à dos tecidos, a penetração da radial é cerca de metade da focal.

2. A onda de choque focal dói?

Costuma haver um desconforto durante a aplicação e, por vezes, sensibilidade local nas horas seguintes — em geral transitórios e bem tolerados. A intensidade é ajustada conforme o paciente e o alvo, e o procedimento não exige anestesia. Se houver dor importante, a energia e o protocolo são reavaliados.

3. Quantas sessões de onda de choque focal são necessárias?

Não há um número único que sirva para todos. Os protocolos costumam envolver uma série de sessões semanais, definidas conforme o quadro, o alvo e a resposta ao longo do tratamento. O número de sessões é uma decisão clínica individual, não um pacote fixo.

4. Onda de choque focal trata hérnia de disco?

É preciso distinguir. A onda de choque focal não desfaz uma hérnia nem descomprime uma raiz nervosa — não é isso que a tecnologia faz. O que ela pode tratar é o componente músculo-tendíneo e fascial da dor que frequentemente acompanha quadros da coluna. Por isso não substitui a avaliação da causa nem a descompressão quando esta é indicada: atua sobre uma parte específica do problema, quando há indicação clínica para isso.

5. Onda de choque na coluna é segura? Tem contraindicações?

Quando indicada e aplicada por critério, é uma terapia não invasiva com bom perfil de segurança e efeitos adversos em geral leves. Há contraindicações reconhecidas: gestação, infecção ativa na área, proximidade de tumor conhecido e distúrbios graves de coagulação. Além disso, a alta energia não deve ser direcionada diretamente a estruturas neurais (medula e nervos), pulmão ou placas de crescimento — por isso, na coluna, o alvo é o componente de partes moles, não a estrutura neural. Uso de anticoagulantes, infiltração recente de corticoide e presença de marca-passo são fatores avaliados antes da indicação.

6. Onda de choque focal substitui a cirurgia da coluna?

Não. É um recurso conservador. Não substitui uma cirurgia que está, de fato, indicada, nem deve ser usada como argumento para adiar uma indicação correta. O princípio que orienta o Instituto é direto: o paciente não será empurrado para uma cirurgia desnecessária, e nunca será afastado de uma cirurgia que ele de fato precisa fazer. A onda de choque focal tem lugar dentro do tratamento conservador, não no lugar de uma decisão cirúrgica bem fundamentada.

7. Onda de choque focal funciona para dor lombar crônica?

A literatura dá suporte a um papel da terapia por ondas de choque na dor lombar crônica, como parte do tratamento. Um ensaio randomizado com ESWT focal mostrou redução de dor significativamente maior que o placebo ao longo de três meses, e revisões sistemáticas de ensaios clínicos apontam na mesma direção, com tamanhos de efeito que variam entre os estudos. A leitura honesta é que ela ajuda como recurso integrado a um plano — não como solução isolada.

8. Em quanto tempo a onda de choque focal faz efeito?

O efeito é gradual. Como a terapia age estimulando uma resposta biológica de reparo no tecido, e não anestesiando a região, a melhora costuma se construir ao longo das semanas, durante e após a série de sessões. Esperar resultado instantâneo em uma única aplicação é desalinhado com o mecanismo da terapia.

Sobre o autor

Dr. Felipe Cruz Caetano dos Reis, ortopedista especialista em Coluna pela USP

Dr. Felipe Cruz Caetano dos Reis

CRM 26.953-DF · RQE 24.292

Ortopedista e Traumatologista — subespecialista em Coluna pela Universidade de São Paulo (USP), com formação no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da USP (IOT-FMUSP). Doutorando no IOT-USP. Autor de dois capítulos no livro de referência da ortopedia brasileira Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio Hebert): Trauma Raquimedular e Degeneração Cervical. Treinamento em endoscopia biportal da coluna diretamente com o Dr. Son Sang Gyu (Coreia do Sul), criador da técnica.

Médico responsável pelo Instituto dos Reis, em Brasília — clínica dedicada a tratar a coluna criando as condições para o corpo reparar, com acompanhamento clínico estruturado pelo Método KODE®, sempre por indicação individual.

Leia também

Referências bibliográficas

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